CARTA DA LIBERDADE - Parte 1


Eu nunca havia me sentido bela ou importante para algum homem, a não ser quando papai passava a mão em minha cabeça e por aqueles breves segundos eu sentia que ele me notava. Sei que quando nasci não provoquei um sorriso em seus lábios. Eu não tinha direito de escolha, talvez eu nunca despertasse um sorriso em um homem. 
Quando criança, eu via papai conversando sobre as leis de Deus e por trás da cortina eu ficava me imaginando entre eles, fazendo perguntas e de peito cheio expondo minha opinião. Mas que sonho bobo este.


E quando papai se sentava a mesa para comer eu queria ser como mamãe ficar em pé esperando sua solicitação para ajudar-lhe prontamente, mas parte de mim queria mesmo era sentar-me ao seu lado para batermos um papo enquanto aproveitávamos nossa refeição. 


Fui crescendo e meu corpo estava ficando parecido com as belas mulheres que eu admirava, assim por mais que eu tentasse não pensar nisso, eu tinha um desejo profundo de ser admirada, cortejada, desejada por alguém do sexo oposto. 


Ainda muito nova, papai me disse que eu me casaria com um homem, e eu nem tinha processado direito essa informação, quando me vi em outra casa, longe dos meus pais e irmãos, com um homem completamente estranho para mim e que eu devia ser completamente fiel a ele pelo resto dos meus dias.


É difícil descrever quem eu era e ainda mais o que eu estava sentindo, eu não me importava mais com a vida ou o que ela “queria” de mim.


Mas chegou um dia mais louco da minha existência.


Já faziam uns dias, que um belo homem me olhava diferente, e por mais que eu soubesse que ele me via apenas como um leão que procura algo para tragar, eu ainda assim me sentia envolvida por tudo aquilo. Sei que ele não se importava comigo de verdade, não havia respeito algum nesta aproximação dele, mas como ninguém se importava com meus sentimentos, eu também não me preocupava mais em honrar ninguém, nem meus pais, esposo, minha cultura e suas leis.


Foi então, que numa manhã bem cedo, eu estava me entregando para aquele homem, quando outros homens entraram e ficaram horrorizados com o que viram. Me puxaram pelos braços com tanta força, meu coração acelerou e eu estava em pânico, minhas mãos suavam e tremiam, eu praticamente não tinha forças para andar. Pensei em fugir, mas era impossível, não tinha forças e aqueles homens me olhavam com tanto nojo e raiva. Minha cabeça pensava mil coisas e em nada ao mesmo tempo. Ouvi aqueles homens cochichando algo, como se tramassem alguma coisa. 


Pensei que ali era o fim da vida que na verdade nunca vivi.


Então aqueles homens me levaram pelas ruas e todos olhavam para mim. Eu estava tão atordoada que nem reparei por onde estávamos indo. Quando me dei conta estava no meio de uma porção de gente e todos olhando para mim com muito mais muito desprezo.

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